Contos: De como Val Desasnou...

June 12, 2011


DE COMO VAL DESASNOU

"Era dia de sexta-feira de tardinha. E Valdelício Bispo dos Santos, o Val, tava desmilinguido ali na janela de sua casa no Bairro Machado, agoniado, seco pra comer água com a galera, mas enfusado dentro de casa.
É que Floripes, a dona Encrenca, tratava ele na corda curta e às vezes na base do trompaço. A cada vacilo ele caía na taca. E Flor pra ficar virada na p*rra era daqui prali, a bicha era carne-de-pescoço.
E tava Val nessa consumição quando Flor, que bulia nuns caqueiros no quintal, gritou de lá de dentro: "Beinho, dê um salto ali na Feira de São Joaquim e compre uma corda de caranguejo pra eu fazer um escaldado pra você mais eu!"
"Oxente, beinho, só se for agora", respondeu Val. E Flor de lá: "Mas ói sua vida, hem, não vá demorar não senão eu lhe passo a p*rra, viu?" E Val saiu picado, pongou no primeiro humilhante e saltou na Feira de São Joaquim.
Malmente ele chegou encontrou a raça: Beto Bozó, Del, Das Águas, Geninho e Zé Mário. "Êta zorra, agora f*deu maria-preá", pensou Val. "E aí, corrente, qual é a de mesmo?", saudou.
E tome a comer rama, dizer dixote um pro outro e olhar os balaios das meninas feito abelha de padaria. De vez em quando uma passarinha ou um caldo de sururu pra dar sustança. ("Nada de tira-gosto. Tira-gosto pra quê? Eu bebo porque gosto!").
Val ficou logo pronto, mas toda mão dizia que ia se picar. Aí Zé Mário (hum, Zé Mário é graça?) vinha com umas conversas de tomar a saideira, a antepenúltima, a de cortesia, a dolorosa, a de comemoração, a de Jair e o tempo passando. Quando Val viu, já era de manhã. "Ai, meu são Longuinho, é hoje que eu vou me campar! Aquela bozenga vai me engarguelar, tá rebocado!"
Meio azuado , comprou a corda de caranguejo e foi pra casa. "Hoje eu me lenho, com certeza, sem medo de errar! A sacrista vai me picar a p*rra", sofria Val.
Mas no que ele despongou do buzu ele desasnou. Ali defronte da oficina de Vadinho Biela, de junto da sua casa, ele desamarrou os caranguejos, arranjou uma varinha e foi guiando os bichinhos até em casa, falando alto pra Flor ouvir; "Caranguejo, diabo, rumbora, ôxe, é por aqui!". Flor, que já esperava na porta, retada, foi logo dizendo "Su descarado, filho de mulá dama, se prepare que vou lhe bater fixe! E nem abra a boca, que você calado tá errado!" E Val: "Oxen, beinho, você pensa que é moleza vir de São Joaquim até o Bairro Machado, na paleta, tangendo essa ruma de caranguejo, fazendo o bicho andar pelo passeio, descer meio-fio, atravessar rua, correr de cachorro, e para em sinaleira? Demora como um corno!"
Ô, retchado!..."
"Historinha" copiada do Dicionário de Baianês, 3ª edição, de Nivaldo Lariú.

2 comments:

Fernanda Reali on June 12, 2011 5:27 PM said...

Saudades de ti, amadinha!!!

Pelo que entendi, "hoje eu me lenho" equeivale ao gauchês Hoje eu me lasco, ahaha

Veja no blog da @cissabranco Sobreviver em Sinop sobre o nosso "BemCapaz", vais achar divertido.

beijooooo

Tiozão das Batidas on September 28, 2011 5:04 PM said...

Orgulhosamente programei uma 'chamada' para este ótimo artigo no novo site dos Blogueiros do Brasil. O post será publicado dia 30/09 às 18:00 hs.
Considere a possibilidade de atualizar a URL no nosso banner. Desculpe-me pelo transtorno.

Abraços cordiais.

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